Dos dinossauros aos dias de hoje: rainhas, revolucionários e muita história pelo caminho.
Quem vive na Zona Oeste passa muitas vezes ao lado da história sem reparar nela. Mas não há problema, eu faço um resumo pra você. Pois vale a pena parar um momento e perceber por que razão estas terras têm o charme que têm, porque quase tudo começou com uma decisão real, uma lenda ou uma descoberta que mudou o rumo da região.
Caldas da Rainha
A história de Caldas da Rainha começa com a rainha D. Leonor, esposa de D. João II. Em 1484, ao passar pela zona a caminho de Óbidos, que já era terra das rainhas, viu camponeses a banharem-se em águas sulfurosas que brotavam junto ao caminho, convencidos de que aquelas águas curavam as suas dores.
A rainha, que tinha problemas de pele e reumáticos (os historiadores divergem sobre quais doenças ela realmente tinha), experimentou o mesmo banho e, sentindo alívio, decidiu mandar construir ali um hospital termal.
Um ano depois, em 1485, nascia o Hospital Termal Rainha D. Leonor, que levou de três a quatro anos para ter suas obras concluídas, e é hoje considerado o hospital termal mais antigo do mundo ainda em funcionamento.
À sua volta cresceu a cidade que hoje conhecemos, como Caldas da Rainha. Não é todos os dias que uma cidade nasce literalmente de um banho.
Estando aqui nessa cidade acolhedora que escolhi para viver, indico dedicares uma manhã ao histórico Mercado da Fruta, o único que acontece diariamente a céu aberto há mais de 100 anos em Portugal.
Depois, caminhe pelo Centro histórico, atravesse o Parque Dom Carlos, visite a Fábrica de cerámicas Bordallo e suba até o Museu da Cerámica.
Óbidos
A poucos minutos de Caldas, algo como 8min, Óbidos tem uma origem igualmente curiosa. Em 1282, o rei D. Dinis ofereceu a vila como presente de casamento à rainha D. Isabel, e desde então tornou-se tradição que Óbidos pertencesse às rainhas de Portugal, sendo por isso conhecida como a Vila das Rainhas.
As muralhas e o castelo, hoje uma pousada, continuam praticamente intactos, o que faz de Óbidos um dos melhores exemplos de vila medieval preservada em todo o país.
Se você pensa em ter um hotel nessa Vila que nos faz viajar no tempo, temos nesse momento, julho de 2026, uma ótima oportunidade em carta.
Peniche
Peniche construiu a sua identidade em torno do mar, com um povo resiliente e que preza por suas tradições, mas também guarda uma página mais dura da história recente de Portugal.
A Fortaleza de Peniche, erguida como defesa costeira, foi transformada durante o Estado Novo em prisão política, onde estiveram presos opositores ao regime. Hoje funciona como Museu Nacional Resistência e Liberdade, um espaço de memória que vale a visita, ainda que o motivo principal para ir até lá continue a ser o mar, o Baleal e a força das ondas que fazem de Peniche uma referência mundial do surf.
Em Peniche o melhor que pode fazer é por os pés na areia, desfrutar do mar e do sol, mas lembre de levar um casaco corta vento, que também é nosso companheiro aqui.
Lourinhã
Poucos concelhos no mundo podem dizer que os seus solos guardam fósseis de dinossauros do período Jurássico Superior, com cerca de 150 milhões de anos.
Lourinhã é um desses lugares, e as descobertas paleontológicas feitas ali deram origem ao Dino Parque, hoje uma das atrações mais visitadas da região Oeste. Curiosamente, uma das espécies descobertas na zona recebeu mesmo o nome Lourinhanosaurus, em homenagem ao concelho.
Se for passear por lá, por favor, vá a Praia da Areia Branca.
Bombarral
Aqui a cereja do bolo é o Buddha Eden, o maior jardim oriental da Europa fora da Ásia. O parque foi construído como forma de protesto contra a destruição dos Budas de Bamiyan pelos talibãs em 2001, e transformou-se num dos jardins mais impressionantes do país, com centenas de estátuas e esculturas espalhadas por uma propriedade vinícola.
Prepare um belo cesto de picnic, traga sua manta, sapatilhas confortáveis e desfrute.
Alcobaça
A poucos minutos de Caldas, também vale a pena conhecer Alcobaça, dona de um dos mosteiros mais bonitos que já vi em Portugal. O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça foi fundado em 1153 por D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, e é o primeiro mosteiro cisterciense do país.
Lá dentro guarda uma das histórias de amor mais ttristes contadas por aqui, a de D. Pedro e D. Inês de Castro, cujos túmulos ficam frente a frente, para que, segundo a lenda, ao ressuscitarem no Juízo Final, o primeiro rosto que vissem fosse o um do outro.
Aproveite para andar pela cozinha do mosteiro, por onde os monges desviaram um rio para ter água corrente direto ali dentro, algo raríssimo para a época.
Alcobaça também é terra de bons pomares e boa doçaria, então não saia sem provar alguma coisa doce feita por lá.
Saindo daqui vá para a Freguesia de São Martinho do Porto, uma das minhas praias favoritas. Depois vá ao Atelier do Doce e coma os sandes de croissant que são divinais e me agradeça por isso.
Nazaré
Bem pertinho fica a Nazaré, vila de pescadores que hoje é conhecida no mundo inteiro pelas ondas gigantes da Praia do Norte, algumas das maiores já surfadas na história do surf mundial.
A Nazaré também guarda uma lenda antiga, ligada à Nossa Senhora da Nazaré, que segundo reza a história, salvou um cavaleiro chamado D. Fuas Roupinho de cair de um penhasco no ano de 1182, quando ele perseguia um veado em meio ao nevoeiro. Em agradecimento, mandou construir uma capela no alto do Sítio, bairro que hoje se acessa por um funicular centenário e de onde se tem uma das vistas mais bonitas de toda a costa portuguesa.
Batalha
Um pouco mais para dentro, já saindo da faixa litoral, fica Batalha, terra de um dos monumentos mais importantes da história de Portugal.
O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha, foi mandado construir pelo rei D. João I para agradecer a vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota, em 1385, batalha que garantiu a independência de Portugal frente a Castela. É Património Mundial da UNESCO, e vale a visita só para ver o tamanho e o detalhe do trabalho em pedra, difícil de acreditar que foi feito há mais de 600 anos.
Essas são algumas das principais cidades que fazem a região Oeste, e o que contei aqui é só uma pequena parte de tudo o que elas têm para contar, porque esta parte do país, como todo Portugal, tem história de sobra.
Viver na Zona Oeste é viver rodeado destas histórias.
Rainhas, mulheres fortes e resistentes, dinossauros e artistas deixaram marcas que ainda hoje se sente e inspiram em cada esquina.
Acredito que essa magia é o que faz com que muitos que pensavam apenas em visitar, ficaram para viver cada maravilha que essa região oferece.
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Anah Cremonese
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